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A encantadora de abelhas

A ceramista Adriana Tiba costuma dizer que não é uma especialista em abelhas, e sim uma amadora – “no sentido de amar o que eu faço”, completa. Nos últimos anos tem se dedicado ao estudo de abelhas solitárias, espécies que não costumam viver em grupos ou em colmeias. É com elas que Adriana tem aprendido sobre a vida e seus ciclos.

Inspire:  De onde vem essa paixão por abelhas solitárias?

Eu nunca tinha ouvido falar de abelhas solitárias. Me interessei por abelhas de forma geral depois de um curso que fiz. Aí comecei a fotografá-las no meu quintal e fui descobrir que as que eu estava registrando eram solitárias. Só então fui estudá-las um pouco mais a fundo.

Inspire:  Mas porque você acredita que seu quintal tinha tantas abelhas solitárias? Há um fator especial?

Na verdade, eu deixo crescer o que as pessoas consideram mato, aquelas plantas espontâneas. Tenho frutíferas, flores, muita coisa plantada, mas eu deixo crescerem algumas espécies naturalmente. Aí, quando você tem a planta nativa, você acaba atraindo polinizadores nativo. É um ciclo importante. 

Eu também tenho muito pouco espaço coberto com piso, com cimento. É mais terra. Os ninhos dessas abelhas solitárias são geralmente feitos no solo ou utilizando o barro. 

Inspire:  Há muitas espécies de abelhas solitárias no Brasil e qual a importância delas?

No mundo há 20 mil espécies de abelhas. No Brasil temos mais de 2 mil espécies. Do total, 300 são sociais, as outras 1700 espécies são solitárias. Por isso é importante ter a dimensão do quanto elas são responsáveis pela polinização da maioria das espécies da fauna. E como há um grande diversidade entre as espécies de solitárias, elas tornam-se responsáveis por matas e biomas inteiros, sendo que algumas são polinizadoras específicas de certas plantas. Se você não tiver uma abelha, você deixa de ter uma planta; ou, se você não tiver uma planta pode acabar com uma espécie de abelha. Uma dependência vital. 

Inspire:  E porque elas são tão pouco conhecidas?

Nós temos a imagem das abelhas sempre atreladas à produção de mel, de cera, de própolis, sempre ligada ao consumo, ao ponto de esquecermos da importância da polinização. No entanto, o papel delas é de uma importância que não da nem pra mensurar. Sem a polinização a raça humana provavelmente desapareceria.

Inspire:  E o que elas tem ensinam?

Eu aprendi a observar a natureza e ver que num jardim acontece muito mais coisas do que se pode imaginar. É uma verdadeira epopeia da natureza. 

Todo terreno baldio tem abelhas. Se tem plantinha, se tem flor, tem abelha. Se tem diversidade, tem diversidade de abelhas, de borboletas, libélulas, mariposas, nada é sozinho. Hoje eu dedico parte da minha vida para que as pessoas observem mais a natureza e toda essa diversidade. E vejam qual o papel de si no mundo, na sociedade, porque está tudo ligado. Tudo está conectado. E uma vez que você começa a prestar atenção, não consegue deixar de ver, não tem como voltar atrás. 

Fotos: Adriana Tiba