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Seja a mudança

Entrevista Claudia Visoni

Claudia Visoni costuma ter na ponta da língua uma frase do grande líder pacifista indiano, Mahatma Gandhi: “Seja a mudança que você quer no mundo”. E Claudia é essa mudança. Em 2012, criou uma horta urbana na Praça das Corujas, no bairro paulistano de Pinheiros, que tornou-se referência mundial e ajudou a inspirar outras tantas pela cidade. Em 2018, foi eleita co-Deputada Estadual por São Paulo, numa candidatura coletiva, formada por oito pessoas, que ganhou o nome de Bancada Ativista. Sua biografia é acompanhada ainda de outros predicados: é jornalista, ambientalista,  agricultora, mãe, cozinheira e dedica parte do seu tempo em projetos comunitários da capital. Entre uma atividade e outra, encontrou tempo para nos deixar sua mensagem mais que inspiradora.

Você é jornalista e atuou na imprensa por muitos anos, provavelmente com uma rotina bem atribulada na capital paulista. Como a ideia de criar uma horta comunitária, a Horta das Corujas, surge em sua vida?

Sempre tive interesse por questões ambientais. Em 1999, eu encontrei no supermercado, pela primeira vez, um produto orgânico. Entrei em contato com o produtor, que eram o Joop Stoltenborg e a Tini Schoenmaker, criadores do Sitio A Boa Terra, e aí comecei a consumir cestas de orgânicos em casa. 

Tempos depois, em 2011, numa oficina de agricultura urbana que participei, conheci a Tatiana Achcar, jornalista, outra grande interessada no tema, e juntas criamos o Hortelões Urbanos, uma comunidade no Facebook que existe até hoje, com a participação de mais de 80 mil pessoas. Aí, dentro deste grupo surgiu a conversa de criar uma horta comunitária em São Paulo e, assim, a Horta das Corujas, que existe desde 2012. 

Você disse que o Hortelões Urbanos chegou a mais de 80 mil pessoas em todo o país. O que você acha que falta para termos essa consciência alimentar mais difundida? 

Acho que todos nós fomos educados pela publicidade, que nos ensinou desde pequenos que ter trabalho com a lida da vida, ou seja, plantar compostar, cozinhar é uma tortura incrível, e que são muito mais legais as coisas “práticas”, como comer fast-food ou pedir comida por delivery. Na verdade, passamos por uma aculturação, e essa tal praticidade passou a ter muito valor em nossa vida. 

Junto com ela veio a comida superprocessada, com muito sal, açúcar, gordura, etc. O movimento da agricultura urbana vai na contramão desse pensamento. Ele vem para reconectar as pessoas com a terra e com nossas tradições alimentares. Acho que falta essa reconexão. 

A Horta das Corujas encontra-se em uma praça pública. Como você vê a relação das pessoas com os espaços públicos?

A relação das pessoas com o espaço público no Brasil, em geral, é de pouca maturidade. Mas não dá pra falar que as pessoas são assim ou assado. Existem diferentes tipos de interação com esse projeto. Temos todo tipo de experiência, desde a pessoa que vai na praça roubar mudas, até aqueles que se doam boa parte do seu tempo para o coletivo. Algumas atitudes são baseadas no egoísmo, na ideia de se aproveitar do trabalho alheio, mas em muitos casos as pessoas vão lá e se doam totalmente para o trabalho comunitário. E isso é super lindo. 

E o que a Horta das Corujas produz atualmente? Como isso é distribuído para a comunidade?

Não existe um controle do que vai produzido. Tudo acontece de forma muito livre. Qualquer pessoa pode plantar, qualquer pessoa pode colher, a qualquer momento. A horta fica aberta 24h horas por dia, sete dias por semana, numa praça pública e não existe um controle nem do que é plantado nem do que é colhido. Então não sabemos quantos quilos saem dali, nada disso. O que sabemos é que lá tem mais de 200 tipos de plantas, incluindo plantas medicinais e muitas plantas alimentícias não convencionais. Que eu me lembre de cabeça, temos peixinho, cúrcuma, caruru, ora-pro-nóbis, nirá, taioba, inhame, quiabo de árvore, tomate, almeirão, celosia…assim vai. 

A falta de tempo é um dos grandes argumentos para que as pessoas não produzam o próprio alimento. Como você responde a isso? 

Ouço muito que a pessoa não tem tempo para cozinhar, para plantar, para costurar, mas eu nunca ouço ninguém falar que não tem tempo para assistir séries de televisão. E olha que as séries exigem das pessoas mais de 20, 30 horas. Eu, sinceramente, não tenho tempo para isso, estou sempre cozinhando, trabalhando, costurando, plantando…

E o que você diria para essas pessoas que têm interesse em produzir o próprio alimento?

Um dos meus mestres é o Gandhi, e ele me guia quando diz: “seja a mudança que você quer ver no mundo”. Muitas pessoas entram em contato comigo falando que o mundo precisa mudar, que a vida precisa mudar, mas essa mudança não se manifesta nas atitudes delas cotidianamente. Quem acha bacana a agricultara urbana, quem acha bacana esse movimento da reconexão com a terra, o meu convite é simples: plante, faça sua horta no quintal, na praça ou onde você quiser. Faça.