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Plantar Conhecimento

Nunca foi tão importante reconhecer o valor de professores e educadores. Nos últimos meses, eles provaram que são capazes de tudo para seguir a missão de ensinar, de fazer brotar o saber em qualquer terreno. 

Kelly e Cristiano são professores há mais de 20 anos. Nos últimos meses viram suas rotinas serem totalmente alteradas e tiveram que se adaptar. E foi uma adaptação e tanto: o trabalho veio para dentro de casa e eles foram virtualmente para casa de dezenas de famílias. Tudo passou a ser online e as tarefas domésticas se confundiram com cotidiano da família. “Assim que acordamos, eu e minha mulher organizamos toda a rotina em casa, preparando o café da manhã e, ao mesmo tempo, auxiliando meus filhos nos estudos. Depois saio para trabalhar e volto no final de tarde. À noite tenho outra turma de alunos me esperando”, conta Cristiano Pinto, que trabalha como professor e coordenador pedagógico em duas escolas, uma privada e uma pública.

“Eu me sinto responsável, comprometida com tudo isso, é minha profissão, preciso fazer da melhor forma possível”

Kelly C.N.T. Groot, que dá aulas numa escola pública, adaptou inclusive os espaços da casa – a mesa de jantar, por exemplo, virou lugar para dezenas de atividades. “A minha mesa é tudo. É local de estudo dos meus filhos, minha sala de aula, local para deixar livros, cadernos e até onde embalo os queijos que meu marido produz. Foi o espaço que eu encontrei, e assim nossa mesa de jantar virou mesa de tudo, menos de jantar. Nosso jantar é geralmente no balcão”, conta Kelly com um tom bem-humorado. Quanto aos horários de trabalho, ela diz que tenta manter uma rotina das 12h às 17h, o mesmo horário que ministrava as aulas presenciais. Nesse período, ela passa conteúdos, corrige exercícios e tira-dúvidas dos alunos de forma sistemática. Praticamente tudo pelo WhatsApp, que segue tocando fora dos horários de trabalho. “Na verdade, independente do horário, quando o celular avisa que tem uma mensagem, a gente não consegue deixar de olhar. Pode ser um aluno querendo tirar uma dúvida, ou mesmo um pai que quer conversar, saber algo sobre o filho. Eu me sinto responsável, comprometida com tudo isso, é minha profissão, preciso fazer da melhor forma possível”, completa Kelly.

O maior desafio 

Para Kelly e Cristiano, o maior desafio nos últimos meses foi realmente a adaptação. Eles contam que muitos professores tiveram que sair de um modelo tradicional de ensino, com giz, lousa e material físico para mergulhar no universo da tecnologia, com o uso de aplicativos e ferramentas digitais, tudo de uma hora para outra. Neste processo, Kelly diz que o que a ajudou muito foi o comprometimento e a paciência de todos: alunos, professores e pais. “Toda vez que uma mãe me agradece porque a filha ou o filho entendeu a lição, eu também a agradeço pela parceria. Como mãe eu me coloco um pouco no lugar das outras mães e pais. Muitos devem estar perdidos, como eu também fiquei. E nessas horas eu preciso ser o chão para eles, preciso dar esse suporte”, afirma a professora.

“Hoje o professor foi pra dentro das casas. Os pais veem todo o esforço que nós fazemos para educar os filhos deles”

Cristiano também acha que, em certos aspectos, esse contexto aproximou um pouco mais pais e professores, e fez a sociedade perceber que a tecnologia não é nada sem a presença do professor. “No passado, muitos acreditavam que o professor seria substituído pela máquina, mas hoje, com a pandemia, perceberam o contrário, que sem um professor não adianta tecnologia, não adianta o computador, não adianta você ter máquinas inteligentes. Nada vai substituir o professor”, completa Cristiano. 

Ele também vê o professor hoje muito mais respeitado, pois antes o contato com os pais acontecia muitas vezes só nas reuniões e, às vezes, nos corredores da escola. “Hoje o professor foi pra dentro das casas. Os pais veem todo o esforço que nós fazemos para educar os filhos deles”, afirma. 

Partindo deste mesmo raciocínio, Kelly diz que não concorda com a ideia de que esse ano é um ano perdido para o ensino e que todo o esforço será em vão. “Eu costumo dizer que não é um ano perdido, mas um exemplo de muito esforço e muito comprometimento, tanto de nós, como de pais e alunos”, completa. 

Quando perguntados sobre o que acham da existência do dia dos professores, o 15 de outubro, ambos foram unânimes em dizer que a maior homenagem é o reconhecimento diário que recebem. “Eu tento cultivar em meus filhos a valorização dos professores não só nesse dia, mas todos os dias, porque é no cotidiano que se faz um professor, não exclusivamente numa data”, diz Kelly.

Mas, mesmo assim, é importante perceber que esse dia é uma ótima oportunidade para deixarmos claro o quanto professores como o Cristiano e a Kelly são importantes, ainda mais este ano, que a forma de ensinar (assim como nosso cotidiano) teve que ser adaptada, reinventada. Talvez este seja um ano para todos se reinventarem. E prestarem uma homenagem a esses profissionais que fazem o conhecimento florescer. Sempre.